Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Exílio (Conto)


Perdido em terras estranhas e hostis, encontrei-me de repente expurgado de qualquer lembrança de minha pátria mãe. Não só tinha esquecido as suas peculiaridades, como também tinha esquecido o seu nome, o nome do meu lar, o lugar em que passei a minha infância e o início de minha adolescência, estes, por sinal, também esquecidos.

A única coisa da qual me recordava eram as sombras, sombras do passado que insistiam em ficar na minha mente, reclamando a minha consciência, sendo mais reais que os homens da colônia, mais reais do que qualquer homem sobre a terra, sombras do velho mundo que só existiam para me lembrar que existia um velho mundo.

Quando fechava os olhos, às vezes via meu pai, ao menos parecia meu pai, tinha algo de mim dentro dele, uma sombra como todas as outras, sentado em frente a uma velha mesa, bebendo um vinho cor de sangue. Às vezes ele sorria para mim, um sorriso branco que ia de orelha a orelha, que contrastava com a sua forma negra, e em seguida ria efusivamente, um riso zombeteiro que ocupava todo o meu ser.

Em momentos de desespero ia à colônia procurar algum conforto. Tentava refugiar-me nas mamas rançosas das putas sifilíticas, mulheres exóticas, que não mais falavam, sequer sussurravam, que simplesmente abriam os braços e ofereciam seus amores a qualquer vagabundo com trocados. Estátuas de prazer e dor perdidas na eternidade desse lugar.

Após as minhas sessões com tais senhoras, geralmente ia tomar uma bebida. Os homens na taberna nunca notavam a minha presença, homens rudes, selvagens, nascidos do sol escaldante, da loucura ensandecida, demônios perdidos. Sempre os odiei, sempre odiei suas gargalhadas, seus cheiros nauseabundos, seus comportamentos humildes que só serviam para ocultar seus comportamentos violentos e corruptos.

No entanto nunca parava de observá-los, eu, sentado numa mesa distante, bebendo aguardente, e eles no outro extremo, em grupos, cantando, com suas vozes de bêbados desafinados, velhas canções, canções sobre mulheres vulgares e amores impossíveis. Cantavam aos berros como um coro maldito, isso até alguém começar uma briga, o que geralmente não demorava muito. Os motivos eram diversos: um olhar atravessado, uma palavra atrevida, uma dívida qualquer. Na realidade, não precisavam de motivos, começavam a brigar do nada: chutes, socos, facadas, o que tivessem à mão para atacar. E sempre tinham uma platéia aos júbilos, pedindo por mais, ansiando a morte de um dos envolvidos. Aquele abismo me atraía, não porque estivesse fascinado, mas sim porque me dava medo, e o medo me fazia sentir algo, apagava por alguns momentos as sombras que me atormentavam.

Por mais que tentasse, não conseguia achar a razão de minha aparente amnésia. Fazia tanto tempo que estava nesse lugar que tinha esquecido até mesmo de como tinha chegado até lá. Botei na cabeça que tinha sido expulso de minha terra, e não só tiraram a minha cidadania como também todas as minhas memórias daquele lugar, e por um descuido qualquer se esqueceram de apagar um vestígio, e esse vestígio eram as sombras. Quando pensava nisso, a cabeça doía, minhas pernas ficavam bambas e uma raiva incomensurável vinha até a mim.

Levei essa raiva comigo dia após dia, agüentando o meu inferninho pessoal, sempre a observar os absurdos do lugar, a violência calorosa, o abuso, o cheiro de bebida, cortadores de cana tendo suas costas castigadas pelo sol inclemente. Queria e precisava fugir.

Ruminei a possibilidade de suicídio, o último dos exílios, mas a minha religiosidade, que por sinal não havia desaparecido com a amnésia, não deixou que levasse o plano ao fim. A religião é algo gigantesca, te acompanha a todos os cantos da terra, te dá energia para continuar caminhando, dá a porção de mentira necessária e diária a todo ser humano que tem a pretensão de continuar vivendo. Claro, existem alternativas que te fornecem o mesmo, mas a religião é a mais poderosa, e tolo é aquele que diz que não precisamos dela. E a mentira que dei a mim mesmo é que havia outra solução.

 Por esses tempos as coisas começaram a ficar estranhas, os homens estavam inquietos, gritando mais do que o usual, agitados, esperando algo. A religião não servia de contento a eles, já a bebida era um combustível inebriante e letal que levava a colônia pouco a pouco à ruína. As autoridades locais agiram com o bom senso peculiar de gente de poder: começaram a espancar os baderneiros, coisa que de nada adiantava, pois esses homens nasceram apanhando e tudo o que sabiam fazer era bater de volta.

Não demorou muito para os poderosos e os pés rapados começarem a se matar. Numa tarde escutei o som de tiros e gritos. Dirigi-me à colônia com a esperança de ser morto e por fim ser libertado do meu exílio.

Corpos pelo chão, casas queimando, mulheres sendo violentadas, foi isso que vi por lá. Os homens morriam como moscas. Nada de mortes épicas e gloriosas, naquela época ainda acreditava nelas, graças aos poucos livros que li, nas mortes valorosas, mas a morte de um homem não tem sentido, não tem nada do que eles chamam de honra, só um pedaço de carne sanguinolento estatelando-se no chão e chorando como um bebê, chamando por sua mamãe, chamando por qualquer um.

Como se eu fosse um fantasma, ninguém tocou em mim, ninguém estava interessado em mim, estavam muito ocupados no momento. A fumaça estava deixando a garganta seca, precisava de uma bebida, uma boa bebida. A taberna não ficava muito longe.

Chegando lá, percebi que as portas estavam escancaradas, tudo deserto, haviam saqueado o lugar, mas ainda existia uma velha garrafa de vinho atrás do balcão, parecia até que estava esperando por mim, parecia que tinha escapado da mão de todos aqueles loucos para se entregar a mim. A dona estava atrás do balcão, morta, sangrando profusamente, passei por cima dela sem a menor cerimônia e peguei a garrafa prometida. Servi-me, vinho cor de sangue em um cálice cristalino, uma coisa bela de se ver. O sol já ia caindo, o que dava aos objetos da taberna um contorno misterioso, a velha mesa à minha frente era magnífica, pura sombra.

A morte rodeava tudo, e eu pensava em minha situação sob uma nova perspectiva. O mundo velho não devia ser lá muito diferente do mundo novo, tanto lá como aqui os homens morrem por nada e sem nada, se fosse diferente, se minha pátria fosse melhor, teria lembrado-me, não importando a artimanha dos meus supostos inimigos, o amor pelo meu lar teria feito as lembranças voltarem.

Talvez eu tenha causado a minha própria amnésia, pois quando não se conhece algo, às vezes esse algo é belo e misterioso, como as sombras, como a incerteza do meu passado. O meu passado poderia ter sido qualquer um, horrível talvez, mas isso não havia modo de confirmar, logo não podia ser afetado por ele. A incerteza do passado é o paraíso, enquanto a incerteza do futuro é o inferno.

E o presente é o exílio, exílio de tudo, exílio de meu país sem nome, e desta colônia perdida, e desta selva de múltiplas cores, e de todos os homens, e das putas mudas e sofridas, e do sol que corrói, e da vida e da morte, e até de mim mesmo. Agora consigo entender, nada sou além de uma sombra, sentado eternamente nesta mesa, a saborear este belo vinho cor de sangue, a escutar passos em minha direção, a rir de orelha a orelha de algo que não sei explicar. Um brinde, portanto, um brinde e vivas ao exílio.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Uma História Radicalmente Condensada da Vida Pós-Industrial

Quando foram apresentados, fez um gracejo, na esperança de ser aceito. Ela riu forçado, na esperança de ser aceita. Então cada um tomou seu carro e foi para casa, fixando adiante, com o mesmíssimo esgar no rosto.

O homem que os apresentou também desgostava de ambos, embora demonstrasse o contrário, ávido por preservar as boas relações a todo custo. Ninguém nunca soube, afinal, como se saiu fora se saiu fora se saiu fora se. 


David Foster Wallace (trad. José Rubens Siqueira)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Um dia qualquer (Conto)


O homem comum não estava se sentindo bem naquele dia. Não era para menos, sua vida andava de pernas para o ar: as contas não paravam de aumentar, o patrão não parava de atormentá-lo, sua filha entrava na puberdade e a cada dia ficava mais descontrolada, e, o pior, andava a suspeitar que sua esposa estivesse a colocar um belo par de cornos em sua cabeça.

Antes, porém, nada disso parecia chateá-lo. Geralmente, quando sentia uma dor incômoda, uma pontinha de consciência, ia afogar suas mágoas na bebida ou nos tele noticiários. Aliás, isso, os tele noticiários, ele adorava. Adorava todo aquele sangue esguichando pela Tevê, o registro de mais um belo dia em nosso belo mundo. Indignava-se sempre com os bandidos diários: “Escória” - dizia-o-, “deviam ser todos mortos”.

Mas hoje as coisas estavam diferentes. Logo cedo, ao se barbear diante do espelho, percebera que os últimos fios de seu cabelo haviam caído. Isso o espantou tremendamente, perder aqueles fios era como perder a juventude em si. Ao olhar mais de perto, tinha a impressão de que em sua careca brilhante e lustrosa estava escrito ‘Fim de jogo’. Os bons tempos haviam acabado. O problema é que eles, os bons tempos, nem eram tão bons assim, só mais do mesmo, a rotina enfadonha embelecida pelos ares do tempo. E ele não havia conquistado nada, nada de relevante nesses anos que tinha vivido. Não era um dos bens sucedidos e inteligentes, era só mais um entre milhares, só mais um com uma passagem direta para o túmulo, e, enfim, o esquecimento.

O peso da idade sempre piora as coisas. Sentimo-nos alienados na solidão, buscamos algo que possa nos confortar, mas é difícil, pois fica tudo embasado, confuso.

O homem comum, este, certamente estava confuso. Na mesa do café da manhã tentou reanimar-se: “Vamos lá, homem” pensava “sua vida não é tão ruim. Apesar de pobre, ao menos tem uma família, alguém em que se possa apoiar, e, nos dias atuais, isso é algo. Veja só a sua filha, veja como é graciosa, e sua esposa, uma verdadeira santa”. 

Mas tudo o que via era uma mulher que não o amava e nem o conhecia, que o traía pelas costas, que o rejeitava profundamente. E quanto à menina, nunca a vira tão distante, um muro de gerações os separava, também não a conhecia.

Tentou engolir essa impressão e lá se foi para o trabalho. O trânsito estava caótico. Um mal das grandes cidades, sempre se demora em chegar a algum lugar, uma lástima. Chegara atrasado no trabalho, com isso teve que escutar poucas e boas de seu patrão. Ele, o patrão, bem novo, um desses que acabara de sair da faculdade, com todas as suas teorias administrativas decoradas, sempre tentando motivar os empregados com sua parca filosofia.

O chefe não tolerava atrasos e falta de comprometimento, em sua concepção, o empregado deveria dar o corpo e alma à empresa, o deus maior.

 Dava nos nervos do homem comum, toda aquela falação, o fato de ter que ser comandado por um “moleque”, como ele sempre o chamava pelas costas. E, apesar disso, o salário não era bom assim, o suficiente para sobreviver com sua família, e, quem sabe, no final de ano visitar os seus parentes no interior, e só. Odiava tudo aquilo, mas tentava não refletir.

Começou o trabalho. Sempre a digitar os gordos números no computador, já havia decorado há um bom tempo, chegava a fazer com perfeição. Ao ficar digitando durante àquelas horas, às vezes parecia que ele não existia mais, só uma sombra, só uma extensão da máquina. Desses tempos, até que gostava. Aquele vazio permitia-o não sentir nada.

Hoje não conseguia, não conseguia sentir o vácuo dentro de si, não conseguia concentrar-se. Aqueles fios de cabelo, aqueles fiozinhos patéticos que haviam renunciado, o destruíam por dentro.

O resultado foi que não fizera nada, procrastinara o tempo todo ao tentar evitar pensar nesse incômodo. Sua cabeça girava, a batalha estava sendo perdida. No meio do expediente pediu para ir embora, sua justificativa foi de que estava doente. Clássica. Funcionou, apesar do olhar torto do chefe.    

Pegou o carro, não sabia para onde ir. Casa? Não havia nada lá, nada que pudesse confortá-lo. Dirigiu sem direção. Parado, no meio do trânsito infernal, começou a olhar para o nada, para as coisas além da paisagem. E fez o que nenhum homem em sua situação deveria fazer, começou a pensar.

Não o pensamento ordinário, aquele no qual nos perguntamos o que iremos jantar esta noite ou o que faremos quando o final de semana chegar. Não, não aquele. O que ocorria em sua cabeça era algo muito profundo, entrava numa caverna desconhecida e escura.

Percebeu a gravidade da situação. Percebeu que provavelmente tinha uns bocados de anos pela frente com a mesma vida miserável, sempre tentando melhorar ao seu jeito, de maneira honesta e decente, e nunca tendo êxito. Porque os prêmios maiores não são para gente como ele, a divina e sagrada Sociedade não permitiria. Ela, com seu poder, o subjugara, sequer dera uma chance. Pobrezinho.

Parou numa praça qualquer. Sentado, começou a admirar o mundo ao redor. Parecia mais cansado do que o normal, uma imensa raiva o preenchia, e essa raiva se transformava em algo mais, uma força, uma resistência.

Neste momento, queria mudar de vida. Prometeu a si mesmo largar o emprego de merda, largar a sua mulher, aliás, diria àquela adúltera que sabia que ela o estava traindo, e iria tentar fazer alguma conexão com sua menina, ser um bom pai, arriscar, fazer o mundo tremer. Seria um desses sujeitos bem-sucedidos, não importando de que forma, um extraordinário, sim, ele seria, dane-se a idade, dane-se os fiozinhos toscos, ele não precisava disso, não mais. O fato de estar vivo já era mais do que o suficiente, percebia isso e um sorriso aparecia em seus lábios, um verdadeiro sorriso, provindo da expectativa de mudança.

Meditou por horas, até que resolveu observar o pôr do sol. O velho sol, já se indo, já morrendo, consumindo-se, mas ainda sim tentando emitir alguma luz, aquela melancólica luz das tardes que torna tudo rosado. Não demora muito e ele é engolido, engolido pelas trevas.

A mudança iria ocorrer, estava decidido, ao menos naquele momento estava. Nem que fosse à força, Deus não mais o desprezaria. Abriria o caminho às patadas, de peito aberto, em suma, um violador.

O celular toca. Aquele toque irritante típico desses aparelhinhos, nunca tinha parado para pensar, mas odiava eles, os celulares. Sua primeira reação foi a de não atender, não tinha paciência para aquilo. Mas os hábitos são sempre fortes, verdadeiras armadilhas, não conseguiu se segurar. Atendeu.

A esposa pede para pegar a filha na casa de uma amiga. O lugar parece longe. A noite cai depressa. Considerou esta sua última tarefa como homem comum. Amanhã, amanhã tudo estaria mudado.

E bota longe nisso! O engarrafamento o atrasou por horas, até que chegou ao seu destino final. Lugar feio, bem feio. Um desses bairros esquecidos das cidades, onde tudo acontece dia e noite e ninguém percebe.

Com tanta coisa passando por sua cabeça, esquecera o número do apartamento da amiga da filha, tentou ligar para mulher, para perguntar, mas ela não atendia. Resolveu andar pelos blocos, para ver se recordava. Tudo deserto, silencioso, miserável. Em sua caminhada, achou a porta de um apartamento aberta. Não tinha o costume de entrar sem ser convidado, mas uma força o atraiu para dentro.

Logo ao entrar, no chão encontrou uma mulher, embebida de sangue, retalhada, nua e morta. Estado de choque. Não sabe o que fazer. Decide por dar o fora dali. Sai correndo.
De repente, portas se abrem às suas costas, como mágica. Gente correndo e gritando. “Ele foi por ali”, escuta.

Ele chega até a rua. Pessoas o estão perseguindo. Sabe disso. Talvez devesse ir ao encontro delas, explicar a situação. Mas será, será que as pessoas iriam escutá-lo? Elas, geralmente, só entendem de uma linguagem, a da violência, esta, que é a verdadeira linguagem universal.

 Correu mais. Estava sendo alcançado. Era só chegar ao carro e fugir. Não estava longe.

“Assassino! Estuprador! Pega ele, pega ele!”

Em sua pressa, decidira por olhar para trás. Grande erro. Bem perto de suas fuças havia uma multidão espumante, clamando por sangue. Não ia desistir, não podia desistir. “Vai dar tudo certo, tudo certo”, pensava desesperadamente.

 Fôlego indo embora. Já não conseguia correr mais. O seu coração batia mais do que nunca. 
Um infarto, talvez? Pouco importa. Caiu ao chão, estafado, sem forças para prosseguir, derrotado. A turba cercou-se dele.

Tentou explicar, mas tudo o que saía de sua boca eram palavras vazias, grunhidos e depois o choro. Chorava como uma criancinha. Sentia-se culpado, não sabia o porquê, mas sentia-se culpado, isto o atordoava.

A multidão queria suas carnes. Um exército de homens e mulheres comuns ávidos por sacrifícios, um ritual, um ritual sagrado. Mesmo se tivessem a prova definitiva de que aquele pobre coitado fosse inocente, ainda teriam ido em frente com prazer. Assim como Jesus, aquele homem iria ser sacrificado por algo, sendo inocente ou não, era o necessário. Só que ao contrário de Cristo, ele não será glorificado por dois mil anos, não, com muita sorte talvez seja lembrado por um dia ou dois, irá levantar alguma indignação nacional e, quem sabe, um breve comentário apaixonado do apresentador obeso do jornaleco sensacionalista da tarde.

Ele não conseguia mais pensar, nosso homem já não tão comum. A dor era demais. Dá-lhe chutes daqui, chutes de lá, ofensas e pauladas.  E lá se ia seus sonhos, suas mudanças, com essas pauladas. Uma loucura. Rasgavam suas roupas.

Não demorou. O povo, que é a voz de Deus e dos homens, fez seu trabalho corretamente. Lá está ele agora, o homem, antes de ser recolhido, seu rosto expressa imensa decepção. Suas partes mutiladas, só para confirmar a castração de toda uma vida. No final das contas, estava amarrado a um pau, nu em pêlo, com a língua de fora, e em cima de sua cabeça uma placa rústica feita de papelão, e escrito numa letra mal-feita a palavra “Estrupador”.

O sofrimento ao menos havia acabado. É isso que importa: que o sofrimento acabe. Às vezes é bom se convencer disso, e, que, por mais que se tente, todas as opções são erradas.


quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Ascensão

A bebida já não tinha aquele efeito inebriante de outrora, pelo contrário, parecia que quando bêbedo ficava a par da verdadeira situação de sua vida. Era como se toda a podridão interior de sua alma fosse revelada sem nenhuma misericórdia, o medo e desespero em sua forma mais pura.
Doravante, continuava a beber com avidez, e de quando em quando parava e , pensativamente, ficava a olhar o copo à sua frente. Sua face ficava tão séria nesses momentos que quem o olhasse de longe diria que estava a ruminar algum tipo de conspiração, algum tipo de ato imediato e feroz.
Bebeu num só gole o conteúdo do copo, o líquido desceu quente, sentiu um gosto metálico e amargo. Arrependeu-se de ter tomado tão depressa, logo seu estômago exibia uma reação lenta e fatal, suas tripas começavam a dar nós, já podia sentir o vômito no extremo da garganta.
Correu para o banheiro, não podia mais segurar o que dele tentava sair. A fétida podridão do cubículo em que entrara só piorava a situação. Finalmente agachou-se na privada malcheirosa e cuspiu o que nunca pôde confrontar.
Quando acabou de expelir aquela essência estava exausto, como se aquele processo tivesse drenado as últimas forças de que dispunha. Encarou a gosma nojenta no fundo do vaso, uma gosma amarelo-verde viscosa que parecia conter em si toda a perversidade do mundo.
Ficou ali por alguns minutos a encarando, chegara há muito tempo ao fundo de um poço sem fundo e simplesmente não tinha o que fazer. Conforme o tempo foi passando algo engraçado começou a acontecer, seja pela bebida ou talvez pela pretensa loucura chegando ao coração deste homem, aquele vômito nojento e fétido tomou uma forma.
O homem esfregou os olhos, não era possível, não podia ser possível, aquela poça nojenta estava com um formato de rosto humano, e tinha até mesmo um sorriso, um sorriso sarcástico e medonho, e os seus olhinhos miravam fixamente o homem.
            Não vai dar descarga?
Ele olha para os lados, havia alguém o observando? Não, ninguém naquele lugar, só ele... E o vômito.
            Presumo que não tenha me escutado, então irei perguntar de novo, não vai dar descarga?
            Quem é você? Como pode estar a falar? Por Deus, estou ficando louco? Além de tudo, estou ficando louco?
            Sempre se vitimando –disse a mesma voz irritadiça- sempre achando que o mundo está a conspirar às suas costas, não o culpo, é a sua natureza, e não se pode pedir a um homem que mude a sua natureza.
            O que quer dizer com isso? Aliás, como pode estar a dizer qualquer coisa? Gritou o homem, desesperadamente.
            Sabe muito bem o que quero dizer, você sabe o porquê pelo qual estou a dizer tudo isso. É um impasse que vem adiando por toda a sua vida miserável, e não se engane, todas as suas péssimas escolhas o levaram até aqui, até este banheiro pútrido deste boteco de merda.
Não pôde responder, estava em estado de choque, a loucura parecia o ter enjaulado, mas no fundo de sua alma algo o inquietava.
            Não precisa responder no momento. Aliás, palavras não irão adiantar neste momento, só ações serão úteis, não há mais espaço para palavras, não há mais espaço para erros. Está na hora de admitir o que o vem assombrando, o que vem negando por toda uma vida, eu, isso mesmo, você recusou a compactuar comigo, mas traiu-se no processo.  
            A verdade é que sou seu único amigo, a verdade é que você é um hipócrita que nunca me aceitou, mas mesmo assim sabe, no fundo do coração sabe, que você sou eu, nós, meu camarada, somos vômito-A voz fez uma pausa, como que para contemplar o silêncio, e depois, numa voz mais grave, continuou - Você me rejeitou e por isso foi rejeitado por um tipo diferente de sistema e agora vive como uma sombra, sem esperar muito pelo dia seguinte. Mas ainda existe a opção de me aceitar, aceitar que você é da mesma constituição que eu, da mesma matéria podre da humanidade, não há nada que se envergonhar em relação a isso.
Lágrimas escoavam pelos olhos do homem.
            Você pode viver com isso, outros vivem despreocupadamente, por qual motivo não o conseguiria?  Na realidade, a única diferença entre nós é que você tem parte na decisão final, pode sumir com tudo isso ou ir em frente, essa é a única diferença entre você e eu.
Um silêncio decisivo pairou sobre o lugar. Lá fora um bêbado proferia xingamentos e batia na porta com força.
            É tarde demais- murmurou o homem- sempre foi tarde demais.
Com um gesto rápido puxou a descarga. Nada aconteceu, puxou de novo e de novo, o vômito, se é que isso era possível, o encarava com certa decepção. Olhou para cima, o teto estava a rodopiar, tudo estava a rodopiar, rápido, cada vez mais rápido, o chão tremia, um buraco se abriu e começou a sugá-lo, tentou resistir, mas era em vão, deixou-se ir e sumiu naquele vácuo.Sua escolha estava feita.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Tudo igual.



Acordei pontualmente às sete horas da manhã. Tomei um banho rápido, daqueles banhos que servem apenas para tirar os cheiros adquiridos das noites em que o calor apodera-se de seu corpo. A razão de acordar mais cedo do que o de costume era por ter uma entrevista de emprego.
Fiz um café bem forte, coloquei minha melhor roupa, quando deparo comigo mesmo no espelho vejo que minha barba não está feita. Faço-a. Aproveito também para passar gel em meus cabelos para deixá-los mais comportados.
Após deixar minha embalagem impecável treinei comigo mesmo o que falar na entrevista. Confesso que fiquei um pouco fora de mim, mas não é isso o que eles querem?
- Pronto! Agora posso mostrar pra eles o quanto eu posso ser comum.

domingo, 19 de junho de 2011

O fim de um mundo (Conto)

Em um dia onde tudo parecia ir bem, o sol estava brilhante o céu limpo e o clima agradável.  Cerca de vinte o três graus, as pessoas andavam normalmente nas ruas, os exploradores: exploravam, os explorados: lamentavam-se, os ladrões: roubavam e os pobres choravam. Tudo como manda o figurino, eis que abre uma luz no céu e uma voz imponente que se pronunciava como o criador disse:

- Seres Humanos, vós desde a criação, vem fazendo o mal, começou com Adão e Eva, depois Caim, mandei o dilúvio para que tudo fosse criado novamente e o bem prosperasse, mas para quê? Fizeram tudo de novo, não adiantou nada a minha seleção, os descendentes de meu melhor homem, tudo de novo, mandei meu filho, vejam até onde me fizeram ir, mas nada, usaram teus ensinamentos para cometer o mal, mataram em teu nome, fizeram guerras, oh! Como podem matar em meu nome!

Multidões paravam para ver e escutar a voz, as fábricas pararam, as pessoas saíam do carro para escutar a voz, os transeuntes arregalavam os olhos, alguns ligavam para os familiares, outros passavam a mão pelo rosto e perguntaram para si mesmo se aquilo realmente estava acontecendo. Mas estava. Era tudo muito real. O Criador desceu à terra como estava escrito em algumas escrituras. Bem a descida não foi bem como os crentes esperavam, menos audaciosa, parecia que o Criador não se preocupava muito com ritos, como a maiorias pensava.

O que acontecia ali era algo que todos esperavam, todavia, pensavam que só iria acontecer em suas gerações futuras. Comoção geral. A voz era ouvida em todos em lugares mas não se via imagem alguma, como se fosse uma alucinação coletiva. Onipresente. A voz então continuou:

- Serei breve e claro. Amanhã à meia noite, a cerca de dezesseis horas para ser mais exato vós tereis o que vêm procurando. Mataram em meu nome, distorceram minha palavra, roubaram uns aos outros, feriram, estupraram, traiu seus companheiros, não respeitaram meus mandamentos, falaria mais, mas as suas consciências falarão por si mesmos.

Ao som daquela voz imponente e retumbante, ao final daquele pronunciamento e o desaparecer daquele clarão, o medo absoluto tomou o coração da multidão e, ao perceberem que estavam todos condenados, que a vida já não iria mais ser continuada, o desejo, o pecado original, aflorou como uma explosão de dentro de seus peitos, o caos, que antes ao menos antes era reprimido pela crença da salvação ou por qualquer outro subterfúgio confortador surgiu de forma dominadora.

Palavras não podem descrever o que se sucedeu; uma carnificina sem igual. A raiva que antes era guardada bem debaixo da consciência surgiu como uma besta, uns culpavam aos outros por aquela situação, por terem sido condenados ao inferno por Ele. Ninguém assumia responsabilidade alguma, a culpa era sempre de outro alguém, e esse alguém deveria sofrer.

Desde o crente mais fervoroso até o mais ignominioso pecador mergulhavam num mar de sangue e de desejos extremos, sim, perante a morte, alguns queriam viver por aquelas últimas horas o que não tinham vivido por toda a vida. A busca de prazer imediato resultou em estupros humilhantes e todo tipo de perversão inimaginável por parte de muitos. Outros só queriam vingança, vingança por terem sidos capachos por toda a existência, vingança daqueles que tinham tirado suas liberdades, que os tinham feito viver na mediocridade, que tinham cortado pela raiz todo o potencial de ser humano que lhes sobrava.

A terra foi empapada de sangue, urubus infestavam as ruas se banqueteando com a carne dos mortos. Essa guerra contra si mesmo, que, deve ser observado, durou por poucas horas, teve como resultado a redução drástica de habitantes da terra, poucos sobravam, o último ato estava por vir.

A noite havia chegado, ao perceberem o fim próximo a maioria dos sobreviventes parou com a carnificina sem sentido. Um outro tipo de medo surgiu, o medo da morte, o medo do esquecimento. Todos olharam para o céu e esperaram o Deus misericordioso, por essa atitude, dava para perceber que iriam tentar, pela última vez, comovê-lo, iriam tentar, entre lágrimas abundantes, pedir uma última chance para a humanidade, alguns ,até mesmo, estavam de prontidão a cometerem sacrifícios em seu nome novamente junto com seus potenciais mártires, dispostos à crucificação mais rígida possível.

A luz divina apareceu novamente no horizonte, um grito uníssono surgiu, “Senhor, poupai-nos, não temos culpa!”, eram eles, os sobreviventes do apocalipse, ajoelhados, pedindo por uma última chance na terra.
A voz simplesmente respondeu:

- Levantem-se, crianças estúpidas, vocês me decepcionam.

Surpresa geral, todos se levantam receosamente, o que seria isso?

- Não é preciso que eu dê um fim a este mundo, vocês mesmos já cumpriram muito bem com esse propósito, ao invés de se arrependerem, ao invés de transcenderem a si próprios nestes últimos momentos, vocês só souberam atender ao capricho de suas mentes corrompidas, seja por sangue ou sexo, isso me deprime, isso me mostra que Ele mais uma vez falhou e que tudo terá que ser começado novamente.

A curiosidade redobra, quem é “Ele”?!

- Tenho algo a lhes dizer, e quero que prestem atenção, eu não sou Deus, sou no máximo um enviado D’Ele. O grande Senhor tem vergonha de se apresentar à sua criação, pois todos vocês, crianças, são um reflexo do grande erro, a impossibilidade de se alcançar a pureza, a perfeição definitiva. Quantas vezes eu já estive dando este comunicado a milhares de povos, a milhares de mundos? E o resultado final é sempre o mesmo, a destruição, esse fator caótico maldito.

A confusão no rosto de todos é evidente, as perguntas são infinitas. O que raios estava acontecendo, não era aquele para ser o fim?

- O homem foi feito à semelhança de Deus, essa é uma das maiores verdades escritas naquele livro. Porém, Ele passou não só as qualidades para a sua cria, como também um dos seus maiores defeitos, o caos autodestrutivo, a selvageria irracional, assim como um pai passa uma doença congênita ao filho.  Acreditem ou não, O Senhor tem esse defeito, sua constituição é de puro caos, a sua deficiência é essa, apesar de todo o poder. Ele nunca entendeu isso, até mesmo procurou no infinito pelo seu Criador, para lhe perguntar o motivo desta maldição. Nunca obteve sucesso, nunca achou uma resposta, e por causa dessa sua falha intrínseca, vem tentado se redimir através de sua criação, mas, não importando o esmero com que a cria, o erro sempre aparece, como uma praga. Já disse que houve milhares de mundos como este, e, infelizmente, todos chegaram a esse ponto, a esse apocalipse, a este ‘final do mundo’, que nada mais era do que um teste, uma vã esperança, de que todos vocês iriam chegar à perfeição , a redenção, no último momento, apesar de toda a destruição anterior. Mas ,assim como nas outras ocasiões, assim como nos outros testes, falhamos, pois vocês não fizeram nada além de se embebedarem no sangue de seus próprios irmãos!

A voz fica em silêncio por um momento, parece que observa a multidão, esperando alguma reação dela, como se a desafiasse.

- Tudo irá começar novamente – disse de repente, com uma voz mais lamuriosa do que antes-, as guerras, a fome, o desespero. Não iremos suceder na busca da perfeição, sei disso, mas sou só um servo, e, portanto, devo acompanhar o meu Senhor nessa loucura.  Antes de ir, quero que saibam que vocês, humanos, nunca foram expulsos do paraíso, ao contrário, o paraíso poderia ser retomado a qualquer momento. Foram vocês que não o quiseram, que o rejeitarão, foram vocês, só vocês.  Agora eu me vou embora, podem se afogar na própria miséria se quiserem, ninguém se importa. Deus irá depositar suas esperanças em uma nova cria, tentara se aperfeiçoar inutilmente, e eu... eu só posso lamentar.

O clarão desapareceu, a consciência pareceu agarrar a cada um dos sobreviventes pelas pernas. Uma culpa dolorosa de existir, de estar vivo, surgiu. Perceberam finalmente que tinham sido abandonados por Deus e que cada um tinha de encarar, se é que era possível, o que haviam feito por àquelas horas, o que haviam feito naquele teste extremo.

Desolações por toda a parte, o fim não havia chegado, mas haveriam de viver como renegados por Deus. Assim como Caim, estavam marcados pela corrupção, o pecado original já nascera junto com eles, a salvação era cara demais, exigia demais, aquele povo era incompleto, trazia a maldição do Pai.

A única coisa que poderiam fazer é viver com essa culpa, assim como seus filhos e os filhos dos seus filhos, assim como qualquer um que fosse de haver a pisar naquela terra maldita e esquecida.  

(Adriano Andrade, Arthur Bernardes)

sábado, 4 de junho de 2011

Caixa de Pandora


Segundo a mitologia grega, Pandora, a primeira mulher que existiu, foi também a responsável por todos os males do mundo.

Só fazendo um paralelo histórico, mitológico, bíblico: Eva, a primeira mulher criada, também é responsável por todos os males da terra, o "pecado original".

Eva foi iludida pela serpente, comeu o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, desobedeceu Deus.

Pandora casou-se com Epimeteu. Este tinha uma caixa que lhe tinha sido dada pelos deuses. Epimeteu tinha o conselho de não abrir essa caixa, pois nela estavam vários malefícios para a humanidade. Foi pedido a Pandora que não abrisse essa caixa.

Tanto Eva quanto Pandora foram vencidas pela curiosidade.

A serpente ludibriou Eva a querer se tornar tão sábia quanto Deus.

Pandora teve curiosidade para saber o que havia dentro da caixa. Abriu-a.

Vários males foram liberados: a violência, a doença, o ódio e várias outras coisas "boas".

Dentre os males que continuam afligindo a humanidade:
O Stress: que é muito diferente de se tornar irado e sair tacando pedra "nosout
ros". Stress também é isso, mas pode ser também dificuldade de concentração ou entendimento devido à grandes pressões que as pessoas têm de suportar diariamente.

A Depressão: que é uma grande desmotivação e falta de perspectivas do que será ou de o que se deve fazer. Um imenso desânimo com a vida e um terrível tédio. Falta de gosto com qualquer coisa.

A Viróse: qualquer desarranjo intestinal que se vier a ter, diarréias, vômitos. Tudo é viróse.

Se há algo de errado contigo, deve ser uma destas três coisas! Pode perguntar em qualquer postinho de saúde aí!

"Ê, 'muié', 'bagunçano' a história da humanidade aí, sá!"

Essas são histórias da maneira como elas são contadas.

O Macumba Viking ama as mulheres.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

"Carta Para Meu Ego"

Queria desculpar de ti por todos esses últimos anos de minha escassa existência. Tenho sido um péssimo companheiro, deixei - te de lado a fim de atender breves vicissitudes do destino e, também graças há um pequeno desvio que tive, ela me apareceu assim do nada e acabou fazendo com que nós dois brigássemos.

No começo tentei fazer com que ela entendesse que eu gostava mais de você, ela disse, “claro, ele deve sempre vir primeiro”, todavia, com o passar dos dias ela tentou nos afastar de pouco em pouco.

Não notei, entretanto, sem mais nem menos comecei a fazer o que antes não havia feito, “ eu te perdôo”, “é claro que sim amor”,”eu não me importo”, “não tem problema”...

Isso só foi o começo. Tentei pensar que aquilo era natural e que na verdade eu só estava fazendo bem para mim mesmo, mas depois comecei a notar algumas mudanças, vi que eu e você já estávamos diferentes e ela fazia com que eu pensasse que você estava me envenenando, “pensamento pessimista” disse ela, você disse que “era realista por demais” no meio dessa conversação eu só queria beijá-la, tocá-la, cada palavra que ela me dizia, esquecia mais de você, até perder-te completamente.

Então só quero pedir pra ti que me perdoe! Não posso ficar distante de você, tu és muito importante para mim, acordar e não sentir você enlouquecido dentro de mim esta me matando.

Ego volte a inchar em meus pulmões, volte a fazer amor com meu espírito, volte, volte a ser o que és e torne-me mais um convencido de amor próprio, preciso amar a mim mesmo mais do que a qualquer outro!

sábado, 14 de maio de 2011

Mensagem Siciliana



Filme "O Poderoso Chefão"

Peixes


Osama Bin Laden, antigo líder da Al Qaeda

Barack Obama, presidente dos Estados Unidos da América

Ayman Al-Zawahiri

Situação:

Barack Obama estava vendo o filme "O Poderoso Chefão" quando foi informando que soldados americanos mataram Osama Bin Laden.

Com a justificativa de "evitar peregrinação", o corpo de Osama Bin Laden foi jogado ao mar.

Barack Obama manda uns peixes para Ayman Al-Zawahiri, que pergunta a um "jihadista":

"Que p... é essa?"

O "jihadista" que viu o filme "O Poderoso Chefão" saca e responde:

"Isso é uma mensagem siciliana. Osama Bin Laden virou comida de peixes."

sábado, 9 de abril de 2011

Rumo às estrelas


Sorriso banguela, roupas esfarrapadas, barba branca, cheiro moribundo, e, é claro, sempre com uma garrafa da cachaça mais barata e letal que o dinheiro pode comprar.

Era só mais um dos que fazem parte do seleto grupo da chamada escória da sociedade. Andava pelas ruas, noite e dia, bebendo vorazmente o seu veneno, e, quando este acabava,  dava de ir de porta em porta pedir alguns trocados, e, naturalmente, em tais situações,  mentia descaradamente: ‘Ô, doutor’-  chamava a qualquer um de doutor, até mesmo o mais humilde operário- ‘ eu e meus cinco filhos não comemos nadinha há três dias, poderia, pelo amor do Senhor Jesus Cristo, me doar algum dinheirinho?’   
      
            Na maioria das vezes tudo o que conseguia era uma desculpa qualquer, como ‘Não tenho dinheiro hoje, volta outra hora’ e ‘Minha mãe não está, ela que tem o dinheiro..’, entre outras mentiras óbvias, já outras pessoas simplesmente fechavam a porta na cara dele, um modo bem mais honesto.
       
            Às vezes, só às vezes, de tanta insistência conseguia alguns trocados furados, e lá ia ao primeiro boteco que avistasse saciar a sua sede interminável.
       
             Apesar de tudo, não era louco, ‘Bêbado, sim, mas doido não, doutor!’, dizia indignado, tinha um imenso carisma e até bastante daquela sabedoria inestimável dos vadios.
       
              Conversava com qualquer um, seu jeito palhaço cativava muitos, parecia nunca se importar com sua situação.
       
               Quando alguém, motivado pela curiosidade mórbida, perguntava sobre seu passado, ele dava respostas desconexas e fantasiosas, ‘ Fui boxeador, derrubei muitos putos no ringue, fiquei bastante famoso, mas problemas físicos me afastaram disso..’, já outras vezes, ‘Era engenheiro, ganhava um bom ordenado, mas, sabe como é, cansei dessa vida, tediosa demais, larguei tudo e resolvi me tornar o sujeito galanteador que sou hoje’, vociferava com aquele sorriso sarcástico.
             
               Alguns poderiam classificar tais respostas como provas de insanidade, mas não eram, ele era um daqueles que não se atreviam a olhar para trás, sabia o perigo de certas memórias, sendo assim, quando perguntavam sobre sua origem, inventava uma boa história para satisfazer o ouvinte.
           
            Sempre que podia, tentava  “filar” cigarros de qualquer um que fosse, irritava os travestis com seus pedidos, ‘Dercy, que bela moça você é! Eu,como um cavalheiro, não posso deixar de observar que uma dama esbelta, como a senhorita, está cultivando esse horrível hábito de fumar. Façamos o seguinte: dê-me este maço de cigarros, vamos lá, meu corpo já está todo destruído, não irá fazer diferença a mim, dê-me, não seja arrisca, estou salvando sua vida...’

            Era o imperador de um mundo sujo e decadente, e nesse mundo, passado e futuro não existiam, só o agora, só o trago quente da bebida descendo pela garganta, os devaneios infinitos.

            Junto com as putas, drogados, marginais, dentre outros elementos, vivia um ciclo interminável e vicioso. Sua única poesia era a noite nas ruas, as luzes, tanto a das estrelas, como a dos postes, só existia isso, na vida endiabrada que levava.

            Largara sabe-se lá o que, rejeitará todas as convenções da sociedade para seguir um caminho autodestrutivo, trabalho, família, impostos, hipocrisia, medo, hipoteca, governo, casa, carro, viagem de verão, escola dos filhos, mandou tudo para o inferno. Seu único e último prazer, e amor, era caminhar sem direção em seu jardim do Éden, com sua poção de esquecimento na mão, rumo ao nada.  

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O grande sacrifício



            Chegara finalmente o momento esperado, a prometida, a nova salvadora daquele lugar iria sacrificar-se, oferecer sua vida a um bem maior.
            Prepara-se para isso por toda a sua existência, fazia parte de uma tradição macabra daquela vila, ela não era, nem deveria ser, a última a livrar aquele povo do mal absoluto, da terrível criatura que assolava  aquelas terras desde o início dos tempos.
            O dragão, o demônio de asas como chamavam alguns, poupava a vila mediante a um trato: de tempos em tempos, uma moça, escolhida quando criança pela própria besta, quando atingisse a idade, deveria oferecer sua vida de livre e espontânea vontade a ele.
            Um capricho digno de tal criatura vil, a donzela escolhida deveria  caminhar sem pestanejar a morte, não havia nenhum cavaleiro branco para salva-la desse destino, embora em tempos imemoráveis alguns tolos tivessem tentado inutilmente derrotar a criatura.
            O povo daquela vila já não mais resistia, fugir não era uma opção, haviam se acostumado com a idéia de oferecer numa bandeja de prata um dos seus ao demônio.
            Desde criança a escolhida era instruída sobre o seu destino, sobre como era heróico sacrificar-se para aquele povoado e de como seria lembrada após a morte, como uma mártir, uma santa, a glória de nunca ser esquecida por aquelas pessoas.
            Porém, desta vez, a donzela escolhida, no momento final já não tinha tantas certezas sobre seu suposto destino.
            Fora instruída para isto, sabia que tinha um dever moral para com os seus, no qual ela deveria caminhar sorrindo para o abismo. Todos contavam com ela, havia a certeza absoluta de seu sacrifício entre aquela gente, mesmo assim, no fundo, a garota não queria morrer por motivo algum.
            Quem pode explicar o que diferiu ela das outras escolhidas? Não há como dizer, cada pessoa é um universo diferente, e em seu universo a idéia de não viver mais não lhe agradava.
            Do que adiantaria a glória? Do que adiantaria ser canonizada como santa? Estaria morta sem nunca mais poder desfrutar dos prazeres da vida, condenada a escuridão sem fim.
            E, mesmo se consumasse o ato, anos mais tarde outra garota iria ser escolhida e consequentemente teria de oferecer-se a besta, não podia deixar continuar esse ciclo interminável de mortes de inocentes, decidira não seguir adiante.
            Egoísmo? Talvez, mas não quanto o povoado daquela vila, que impunha e encorajava que um dos seus fosse de encontro a criatura demoníaca. Oras, entre o egoísmo individual e o coletivo não existem diferenças, ainda é egoísmo de qualquer forma.
            Ao contar a sua decisão ao povoado a donzela surpreendeu-se, talvez por sua ingenuidade, a bajulação e a misericórdia de antes se transformaram numa agressividade sem limites, muitos dos que rezavam por seu nome agora o amaldiçoavam, certas pessoas ficaram tentadas a simplesmente  amarrá-la e a levarem ao demônio alado.
            Obrigá-la não daria certo, o dragão queria  a moça disposta a morrer, queria que a escolha fosse dela, não seria enganado, não era possível ir contra o seu capricho.
            O amor do povo era agora um ódio ardente, alguns suplicaram aos prantos para que a donzela os salvasse, não houve nenhum resultado, a decisão dela prevalecia acima de tudo.
            Desistiram de tentar convencê-la, a multidão exigia que ela fosse embora, caso o contrário eles próprios dariam um jeito de cessar com a vida da moça, sua condenação seria a expurgação completa, a solidão torturante de um mundo vasto e cheio de incertezas.
             Aceitou sair. Enquanto percorria os portões, pensava no que havia rejeitado, o egoísmo dos mártires, sua pessoa sendo lembrada com louvor e carinho por muitas gerações, uma grande tentação, e mesmo assim só um capricho, como o do dragão maldito.
            Longe do lugar onde nasceu, viu aos céus grandes asas vermelhas, que tampavam o sol, indo em direção a vila, resolveu não mais olhar para trás, o caminho a sua frente era desértico, não sabia o que iria fazer, talvez não sobrevivesse muito, mas não havia rancor em seu coração, tinha feito a sua escolha apesar de tudo, as vezes esse é o maior sacrifício que se pode cometer.
   

Velho Viking





O espírito de um imortal em um corpo ja cansado,
que não consegue carregar seu próprio peso
a única coisa que carrega, são cicatrizes
de batalhas travadas ao longo de sua vida.

O velho toma a frente do campo de batalha
se apoiando em seu simples cajado de madeira
carregando sua melhor amiga, sua velha espada
agora quase tão pesada quanto seu corpo.

Seus ferozes inimigos rugem à sua frente
o nobre velho estremece, por causa da idade
não por medo, jamais por medo, ele ama a batalha
assim como seus irmãos, todos armados ao seu lado.

O velho solta seu cajado no chão coberto de neve
empunha sua velha espada com ambas as mãos
com uma força sobrenatural a levanta pro alto
e grita em honra de seus irmãos que habitam Valhalla.

Seu coração pulsa como os de um predador
sua mente anseia por um inimigo forte o suficiente
para fazer valer a pena o cansaço de todas as batalhas
sua alma está pronta para se juntar aos grandes deuses.

O próprio Odin toca em seu coração
seu grito de batalha aquece o espírito de seus aliados
e faz seus inimigos sentirem um frio por dentro da carne
mais congelante do que o aço das espadas no inverno...

Ele avança junto de todos seus irmãos
conhece cada passo do campo de batalha
como um velho lobo conhece uma floresta escura
seus inimigos não têm pra onde correr... tarde demais.

A espada do velho viking dança em perfeita sintonia
corta o aço como se fosse carne
corta a carne como se fosse a alma
e toma do sangue dos inimigos como se tivesse sede.

A presa foi facilmente eliminada
o velho mestre lamenta por não econtrar um grande inimigo
mas os próprios deuses reconhecem, não há mortal grande assim
o coração do velho descança, vai parando lentamente...

Todos seus irmãos fazem honras em seu nome
o velho cai no campo de batalha com nenhum ferimento sequer
o grande Odin e seu filho Thor vieram pessoalmente
levar tão grande guerreiro pra frente dos exércitos de Asgard.

sexta-feira, 18 de março de 2011

No Corredor


Acordo empapado de suor. Ainda é madrugada, ao menos suponho que seja, aqui dentro do meu quarto é impossível saber a hora exata. Tento dormir novamente, não consigo, é impossível, a ansiedade me domina, dentro de algumas horas estarei dando o mais belo espetáculo de minha vida, um momento pelo qual sempre esperei.

            Decido parar de tentar adormecer. Não faz mais sentido sonhar, tenho poucas horas antes do “show”, preciso aproveitá-las acordado. Fico observando o teto, o mesmo maldito teto com que dei as caras assim que acordava nos últimos anos. É a última vez que o observo assim. Estou me despedindo deste lugar, deste mundo, indo para a glória, a transcendência.

            Finalmente a manhã chega, sei disso pelo rapaz uniformizado que passa em frente ao meu quarto apressadamente. Sendo assim, em pouco tempo o café  é servido: mingau de aveia, pastoso e doce, não é dos meus preferidos, mas me acostumei ao sabor.

            O rapaz aparece novamente trazendo uma visita, um homem com uma batina e bíblia na mão, um padre, presumo. Não entendo o que um destes quer ao me visitar, enfim, ele entra no quarto de forma cautelosa e senta-se na beirada de minha cama respeitosamente.

            E começa o seu discurso sobre Deus, céu, inferno, sentido da vida, perdão e Cristo. Depois de um monólogo interminável pergunta-me se quero me livrar da culpa, dos  pecados.

            Não o entendo, nunca fui pecador, nunca fui culpado de nada, sou um dos seres mais puros que já pisaram neste planeta, talvez a única culpa que tenha seja de ser um eterno lutador, um artista, alguém predestinado ao sucesso.

            Tento explicar isto ao camarada. Ele não entende e insiste em seu argumento. Digo que está muito enganado, que estava naquele lugar não por ser um condenado ou por ter cometido algum crime, e sim para me preparar para o espetáculo final, para a minha obra-prima essencial.

            Um abatimento cai sobre o rosto do homem. Ele se levanta, balança a cabeça tristemente e vai embora com as suas fábulas sobre o céu e o inferno.

            Estimo que se passem mais algumas horas. O nervosismo cresce dentro de minha alma, o coração parece que vai explodir. Será que estarei pronto? Será que irei satisfazer o público? A incerteza é angustiante.

            O almoço chega, mas não qualquer almoço, esse é especial, eu o escolhi, deram-me esse pequeno prazer. Feijões vermelhos, ovos, amendoins e suco de abóbora. Tudo na proporção exata. Engulo com voracidade, com o apetite de um rei. Sou o mais sortudo do mundo neste momento.

            Mastigando, uma reflexão vem a minha mente: depois de hoje, dentro de alguns minutos, suponho, não precisarei de refeição alguma, nunca mais, então por que ingiro esta? Alimentos servem para dar energia, para sobreviver, para dar continuidade a vida, e minha vida, bem... Confesso, esse pensamento infeliz tirou um pouco de meu apetite.

            Após o almoço, dois uniformizados aparecem, abrem as portas de meu quarto, e pegam-me pelos braços (ainda bem, não sei se iria conseguir ficar de pé sozinho) e sou levado.
         
            Enquanto sou arrastado ao destino final, passo a passo pelo corredor cinza escuro, tento relembrar o que me levou até aqui, lembranças vagas e imprecisas passam pela cabeça, não consigo conectá-las com o agora. Não importa, não é necessária explicação, talvez eu simplesmente sempre estivesse aqui, caminhando pelo corredor cinza escuro lustrado.

            Chego ao palco, olho com relutância A cadeira, onde farei a performance. O público sentado ao fundo dirige olhares frios como pedra a mim. Os uniformizados colocam-me  no lugar devido.

            O procedimento é iniciado. Sou amarrado, esponja molhada é colocada sobre  minha cabeça, assim como um tipo de capacete, gotas d’água escorrem sob meu rosto. Sinto-me tenso.

            Um dos uniformizados começa a falar em voz alta, cita um nome várias vezes, de alguém que certamente não conheço, um sujeito que cometeu vários crimes hediondos e outras besteiras que não tinham nada a ver comigo. Deve ser algum faz de conta, parte do teatro.

            Perguntam-me se tenho últimas palavras, não, não as tenho, tudo o que faço é sorrir de forma nervosa. Mostrarei o que realmente sou, o importante, no espetáculo a seguir.       

            “Que Deus tenha piedade de sua alma”, diz um homem. A platéia me olha de forma raivosa, sedenta por um pedaço de mim. Bem, logo terão isso. Fico feliz.

            Uma alavanca é acionada. Corrente de excitação pelo corpo. O show começa.

         

...                  

domingo, 30 de janeiro de 2011

Dança


É, galera...
Como diz o velho ditado

"Quem não tem cão, caça com gato!!!"

Então...
Final de Semana...
Churrascão...
Galera Gente-Boa...

Fiz um CDzinho tendencioso...

Só com forrózinho.
Uns três bolerinhos, para dançar juntinho...

Convenci os Djs
E dalê forró!!!

Por questão de sei-lá-o-quê,
Diz a tradição que quem guia a dança é o "cavalheiro"
Mas como "quem não chora, não mama"
(pus isso só para rimar com "dança")
Fui obrigado a ser guiado pelas damas...
(é, não sou o que se pode chamar um "pé-de-valsa",
mas parece que consegui "enganar" bem)

O importante é:
Dancei, literalmente!!!

(Visto que ruim seria dançar no sentido figurado.)

Então...
"Quem não tem cão, caça com gato!!!"

Quem não consegue guiar, dança guiado...

E se não dançar...
Dançou!!!

domingo, 5 de dezembro de 2010

A Entrevista

Enquanto aguardava em uma sala de espera para uma entrevista de emprego, percebeu uma moça bem afeiçoada com um lindo sorriso que o perscrutava. Como esse tipo de ocasião o deixava nervoso quis corresponder ao teu sorriso com um cumprimento, mas não o pode, então contentou-se em retornar um sorriso.

- Já está esperando há muito tempo, com um sorriso jovial, perguntou a moça.

- Há cerca de cinco minutos, respondeu.

- É ruim quando eles se atrasam, não é?

- Eu quem digo, a cada minuto fico mais nervoso, respondeu o rapaz, surpreendido com a extrema e convincente simpatia da jovem moça.

Iniciaram assim um interessante diálogo, as perguntas e as respostas eram diretas, na maioria das vezes óbvias, todavia isso não tirava o brilho do assunto. No decorrer do diálogo pensava ele “ Tenho que pegar algum tipo de contato com ela, Mas como? Será que ela vai achar estranho? Penso que seja melhor esperar mais um pouco” Concluiu o rapaz após um breve, mas intenso conflito consigo mesmo.

Tempo, tempo, tempo. Depois de decorrido cerca de trinta minutos (acreditem, este é o tempo médio de espera em uma entrevista de emprego) seguiram conversando. A jovem se mostrava alegre e entusiasmada com a oportunidade de emprego, ele não menos, apesar de que o motivo de seu entusiasmo era outro, a autoconfiança já estava o envenenando em suas palavras. Entrou uma moça extremamente bem vestida.

-O pessoal que irá participar do processo seletivo, acompanhem-me por gentileza.

Levou-os para uma sala de reunião e falou para todos sobre a referida vaga. A partir deste momento a ocasião não permitia mais que os dois se falassem. Com o decorrer do processo, deu-se um momento em que seguia individualmente para uma outra sala, tratava-se da etapa final do processo.

Ao chamarem pela jovem ele se deu conta que as chances que tinha se esvaíram por completo. Afinal ele não tinha nada que faria com que eles se falassem novamente, só então percebeu que o momento apropriado tinha passado e que a possibilidade de se verem novamente se tornara ínfima.

-Até onde irei com o meu perfeccionismo? Balbuciou em voz sussurrante, imperceptível para as pessoas que estavam ao seu redor. Pensou em ocasiões semelhantes, de como via as situações formarem-se em sua cabeça e de como elas iam embora sem qualquer motivo, junto com a confiança em si mesmo. Situações que se tornavam impossíveis sem qualquer razão, da mesma forma que uma gota se movimenta em água corrente, movimentavam-se seus pensamentos. Após alguns longos segundos em seu inferno pessoal, levantou a cabeça e voltou a pensar no que realmente o levou até o lugar onde ele se encontrava no momento, no trabalho.

(Adriano Andrade)